Mostrar mensagens com a etiqueta Natália Cardoso. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Natália Cardoso. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Geometria de Saltos Altos


Foi no passado sábado, dia 17, que na Biblioteca Municipal de Tomar, a (ex)professora da ESSMO/AENSM, Natália Cardoso, apresentou o seu livro “Geometria Descritiva de Saltos Altos”.

O Auditório da Biblioteca esteve cheio para celebrar, mais do que um livro, a existência e a excelência de uma professora que marcou várias gerações e muitas centenas de alunos, colegas e amigos. Para quem conhece a Natália, sabe que o livro não podia ter outro nome!

Foi um momento bonito, integrado nas comemorações dos 50 anos do Liceu/ESSMO, cheio de gente de todas as idades, vinda de todos os lados, unidos por uma professora inesquecível.

Logo de início, tivemos um momento musical em que a Júlia Quadros e o José Morgado apresentaram uma versão da música de Mallu Magalhães: “Velha e Louca”. Mas como os intérpretes fizeram questão de esclarecer, qualquer semelhança entre a letra da música e a protagonista da tarde seria, obviamente, uma mera e infeliz coincidência!

Leram-se seguidamente, alguns excertos das histórias presentes no livro. Registam-se as leituras de Luís Costa, aluno da prof.ª Natália no seu primeiro ano de lecionação, em 1971. O texto chamava-se “Pernas que não acabam” e falava de uns matulões do 6º ano que tiveram que ensinar uma “carinha laroca”.

E o Edmundo Rivotti, juntamente com o André Cameira e o Hugo Minds interpretou o tema “Outer Space” de sua autoria.

O João Patrício veio ler um excerto de “Lá fora fazia Sol”, de Caetana Serôdio. Mas teve ainda tempo para ler um sentido e significativo texto de sua autoria em homenagem à amiga e colega.

A Ana de Carvalho leu partes do “A Escola fora da Escola”, de Álvaro Barbosa, ex-diretor do Convento de Cristo e recordou que antes de alguém ter “imaginado” coisas importantes e complicadas como a “Flexibilidade Curricular” ou as “Aulas fora da caixa”, já havia quem fizesse isso tudo só porque gostava de ser professora e gostava dos seus alunos.

E então, fora da “ordem de trabalhos” foi passada uma coleção de fotografias que revelaram as “tristes figuras” que a Natália Cardoso fez (juntamente com mais uns quantos maduros) enquanto pertenceu ao corpo (in)docente da ESSMO.

A Inês Fat leu um divertidíssimo texto que falava do seu pai e de um armário fechado e de magia. E depois cantou e encantou.

O João Patrício voltou a palco para ler um extraordinário texto de Carlos Trincão. Revelou-se finalmente a existência de um guião secreto que passa, (secretamente, pois claro!), de Mordomo para Mordomo, sobre como resistir e como responder às pretensões que uma certa dama em fazer uma “pequena alteração” (20cm de salto-agulha) ao traje feminino das moças que transportam os Tabuleiros.

E finalmente foram os membros da mesa a deixarem algumas palavras à Natália.

Carlos Trincão, embora não tendo sido aluno de Geometria Descritiva, sentiu que conhecia aquela professora como se tivesse sido sua por muitos anos e terminou a sua notável intervenção afirmando a certeza a Natália tivesse sido obrigada a preencher grelhas, apresentar projetos, fazer relatórios, recolher evidências, articular conteúdos e flexibilizar currículos para provar que dava aulas extraordinárias… que as aulas da Natália que foram luminosas, brilhantes e sedutoras (porque ela o é!), teriam sido certamente obtusas, opacas e desinteressantes.

Hugo Cristóvão deixou algumas palavras bem-humoradas e permitiu aos presentes que ficassem a saber qual a melhor turma de Artes que alguma vez passou por Tomar. Terá sido uma conjugação perfeita de uma certa professora com uns certos alunos…


E para terminar as intervenções dos convidados, Celeste Sousa fez uma breve síntese do perfil da Natália enquanto professora do Liceu, da ESSMO e finalmente do AENSM, destacando as suas qualidades como pessoa e como profissional.

Foi então tempo para a autora dizer coisas.

Disse algumas. Agradeceu muito.

Mas fica-me a lembrança de uma frase simples, dita com os olhos a marejar, com os braços abertos como se nos abraçasse a todos e a cada um de nós, e com um sorriso discreto, sereno, do mais fundo da alma. Disse: “Estou feliz!”

Apeteceu-me gritar-lhe: “Bem o mereces!”


José Paulo Vasconcelos



↓ Mais fotos nesta pasta: ↓
GEOMETRIA DE SALTOS ALTOS





quinta-feira, 28 de abril de 2022

Entrevista a Natália Cardoso

Quem é que era a professora Natália no 25 de abril? Que idade tinha? Onde é que estava? Enfim, quem era a professora Natália no 25 de abril?

Eu era uma teenager. Estava na Guiné. Tinha casado há cerca de 2 anos com um militar de carreira, da Academia, que tinha sido destacado para ir para a Guiné. Estava na Guiné Bissau, na capital Bissau.

Natália Cardoso
(foto perfil Facebook)

No momento, no próprio dia, soube da existência do 25 de abril?

Eu vivia sozinha, numa casa muito velha. Ia a pé, para as minhas aulas, com os meus livrinhos, para a escola Comercial e Industrial de Bissau, no dia 25 de abril.  No caminho, encontrei um militar meu amigo que me disse que tinha havido uma revolução em Lisboa, mas eu quis ir para a escola na mesma. Entrei e uma grande confusão....  e vários militares guineenses armados. Naquele momento, tive muito medo. Quem me salvou foram as minhas alunas que lá explicaram aos militares que eu era “a professora amiga” e acabaram por me levar para casa, onde fiquei. Dois dias a seguir, o meu marido veio “do mato”.

Em que ano é que a professora foi para a Guiné?

Setembro de 1972

Estando primeiro e depois estando , como é que se sentia a guerra? Sentia que era uma guerra injusta?

Eu sou duma geração que sabíamos da dureza da guerra no Ultramar, e dos soldados que lá morriam. Eu era uma miúda e depois fui para as Belas Artes. As Belas Artes era um local de ensino diferente dos outros, a todos os níveis.  Era ali que se encontravam com frequência os cantores de intervenção assim como atores, poetas...

Antes disso quando estava em Portugal sentia-se, ainda não tinha consciência, mas sentia alguma repressão por parte do Estado Novo?

Não. Eu só me comecei a perceber de algumas coisas quando fui para as Belas Artes, porque, como já referi era um espaço onde se encontravam pessoas com ideias diferentes.

Depois, quando é que voltou para Portugal?

Vim sozinha para Portugal em maio. Mas voltei depois a Bissau na altura da independência porque o meu marido ainda lá estava.

Acha que a transição na questão da independência das colónias devia ter sido feita de outra forma?

Eu não tinha conhecimentos nem opinião sobre esse tema.  Mas quero referir, quando se fala sobre o tema do colonialismo, que nós, e quando digo "nós", refiro-me aos professores, éramos amigos dos alunos e da população.

Depois regressa a Portugal. O que é que sentia em Portugal uma regressada que não via Portugal há anos. Não se notou a explosão de liberdade?

Como eu vim para Tomar passado um mês do 25 de Abril, as emoções já tinham acalmado.

Voltando à guerra. Você era mulher de uma pessoa que não via durante semanas. Ele ia para o mato. Como é que uma esposa se sente, para além de incerteza e de medo, quando o seu homem está desaparecido?

 O que valia era a companhia que tinha dos meus alunos, passava o dia inteiro na escola.


Ganhou, nos períodos a seguir ao 25 de abril, alguma consciência política?

Não…. Algumas revoltas interiores sim.... 

A política, dessa forma, afetou-a diretamente?

Sim, sim, sim…. Muito...

Depois deste tempo todo e de todas as suas revoltas, como é que olha para a revolução na sua totalidade ao longo do tempo?

Depois do 25 de abril, passei por muitas desilusões. Mas, atenção, “25 de Abril Sempre”, porque se não tivesse existido, os nossos soldados continuavam a morrer no Ultramar.

Acha que, nesse sentido, se cumpriu abril?

Sim.  Mas ainda há muito por fazer...

Passado isso tudo. Ter estado na guerra, ter vivido todos esses momentos. Ter sofrido. Sente-se hoje uma mulher livre?

Sim. Sim.  Eu sempre fui uma mulher livre a todos os níveis. Livre e com o direito de dizer o que penso, isso é o mais importante.