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segunda-feira, 15 de julho de 2024

A poesia está na rua

A admirável pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva sabia muito bem do que falava, quando gravou o título deste texto numa das suas telas. Em homenagem e exaltação do 25 de Abril de 1974. E do seu profundíssimo significado para a sociedade portuguesa.


Como muitos outros artistas portugueses dos primeiros modernismos, e seguintes (Amadeo de Souza-Cardoso, Santa-Rita Pintor, Almada Negreiros, Júlio Pomar), escolheu Paris para o seu aperfeiçoamento plástico e técnico. E afirmação, como cidadã livre. Nesse tempo, Portugal era uma terra de ditadura, “uma espessa noite sem fim”. Paris, era a urbe, um chão de liberdade. 


Muito cantores de intervenção portugueses (Sérgio Godinho, Vitorino, Jorge Palma, entre tantos outros) cantaram pelas ruas da cidade-Luz, na boca das estações de metro, nas praças e boulevards, o sonho de um Portugal livre e democrático. Se o fizessem em terras portuguesas, o mais certo era serem perseguidos. Ou presos e torturados.


Portugal comemora os 50 anos do 25 de Abril. Para lá das comemorações institucionais que se vão realizando ao longo do ano por todo o país, a escola pública tem a claríssima responsabilidade cívica de se associar às celebrações desta efeméride. Convém lembrar que, em Abril de 1974, Portugal apresentava a maior taxa de analfabetismo da Europa e que só o regime democrático e a escola pública conseguiram eliminar esse atraso atávico e puderam proporcionar a todos, sem distinção, “a iluminação das letras e do conhecimento”, na formação de homens e de mulheres na plena igualdade de oportunidades, cidadãos conscientes dos seus direitos inalienáveis e da sua determinação na construção de uma sociedade mais justa, moderna, com os olhos colocados no futuro.


Neste contexto, o Departamento de Ciências Sociais e Humanas, do Agrupamento de Escolas Nuno de Santa Maria, em conjugação com o Projeto + Humanidade, celebrou esta efeméride com um vasto conjunto de atividades, nos dias 23, 24 e 26 de abril. Estas visaram, antes de mais, celebrar a democracia e a liberdade, a dignidade da pessoa, o que é viver em democracia, num regime político livre e plural – onde todos cabem, mesmo os inimigos da democracia – e promover a reflexão e a consciência cívica de cada um e de cada uma. Isto, num tempo em que os regimes democráticos, em muitas partes do mundo, são acossados pelos populismos e extremismos políticos, nomeadamente pela extrema-direita, pela desinformação, pela hostilidade face aos imigrantes (apenas quatro países no mundo não têm emigrantes portugueses) e correspondentes discursos de ódio.


Neste contexto, foram disponibilizadas à comunidade educativa do Agrupamento (na ESSMO e na EDNAP) várias atividades: no Polivalente da ESSMO, uma exposição de cartazes, a cores, sobre o 25 de Abril, em grande e médio formato. Ainda, no mesmo espaço, a imprensa e a Revolução, com jornais da época; uma exposição de cartazes, gentilmente cedidos pela PORDATA, sobre o que mudou, em Portugal, em diversos campos, com os 50 anos de democracia e trabalhos de alunos.


Na Biblioteca da ESSMO, foi montada uma exposição sobre a Censura, com um conjunto de livros censurados e, outros, proibidos pelo Estado de Novo. No mesmo espaço, funcionou a Sala da Poesia. Neste âmbito, foi gravada previamente a leitura de vários poemas por alunos do 5.º ano da EDNAP, e passada no plasma. Depois, de ouvirem os poemas gravados, aos alunos das turmas do Agrupamento, em rotação ao longo dos três dias, era-lhes solicitado dizerem alguns poemas, fotocopiados, e enquadrados no contexto da efeméride.


Na sala de Artes foi montada a Sala da Tortura. Da atividade constavam vários passos: visionamento, no plasma, de uma pequena peça de teatro, da autoria do professor Paulo Antunes, com a representação, gravada, de uma cena de interrogatório de um preso político pela PIDE (polícia política que foi um dos pilares da ditadura). Os artistas são alunos do 9.º A. Outro passo foi a leitura, por um dos alunos das turmas que iam chegando, de relatos feitos por presos políticos (mulheres e homens) e das brutais sevícias que sofreram durante dias, semanas, meses…anos. Para concluir, os alunos colocavam as questões que consideravam pertinentes e os comentários alusivos.


Na Biblioteca Municipal de Tomar, no dia 23, realizou-se uma tertúlia “Como eu vivi o 25 de Abril de 1974”, com os professores Eduardo Vaz, Rui Machado e a Diretora do Agrupamento, Celeste Gonçalves, para as turmas de História A e de História e Cultura das Artes. Relataram, num êxtase retrospetivo, como receberam a Revolução e como “esse dia mágico”, que iria mudar profundamente Portugal, os marcou para todo o sempre.


Na EDNAP, na Biblioteca, foi feita a recriação de uma sala de escola primária do Estado Novo, com o mobiliário, os materiais, mapas e demais objetos que a caracterizavam. Tal como aconteceu nas restantes “estações”, os professores do Departamento fizeram o enquadramento temporal, social e político da época, bem como a visita guiada das turmas.

Celebrar com a dignidade, e a qualidade exigida, organizar atividades tão desafiantes e plurais, relativas a esta efeméride e ao seu tão grande significado na história nacional, congregou o melhor das partes envolvidas.


Como é incontestavelmente aceitável e, portanto, compreensível – num regime plural e aberto, como é a democracia – um tão vasto conjunto de atividades não mereceu o aplauso de todos. Mas, mereceu larguíssimos encómios e demais encorajamentos da maioria da comunidade educativa, que sentiu como sua cada uma das atividades apresentadas.


Valeu a pena? Como tão admiravelmente escreveu o poeta Fernando Pessoa (Poeta tão notável e objeto de culto em todo o mundo) "Tudo vale a pena se a alma não é pequena." E a democracia, a liberdade, a igualdade, a dignidade de cada ser humano, valem tudo.


Nascemos livres. Somos livres e iguais. A cada batimento.


quinta-feira, 30 de maio de 2024

Canta-me como foi há 50 anos

 No dia 17 de maio encerrou-se o ciclo de três espetáculos “Canta-me como foi há 50 anos”.


Estes espetáculos, criados e montados por um grupo de professores do AENSM, retomam a ideia que (desde há 24 anos) se tem vindo a repetir por altura do 25 de Abril – a celebração, mas também a interpelação, das razões e das promessas que essa madrugada trouxe ao país.


Desta vez, os espetáculos basearam-se no livro “Era uma vez o 25 de Abril”, de José Fanha, e permitiram levar para palco um conjunto de memórias e de momentos que importa não deixar desaparecer.


Numa sequência narrativa não linear, o espetáculo de quase duas horas, começou com a evocação das ex-colónias através da belíssima participação de um grupo de dança (SFGP) que coreografou a música “Galinhas do Mato” de José Afonso.


Passando depois pelo regresso dos retornados ou refugiados a Portugal após as independências africanas de 1975, o palco do cineteatro Paraíso permitiu agrupar as memórias mais dolorosas, os momentos mais inocentes e as promessas mais utópicas, tudo ilustrado com músicas que nos ficaram no ouvido e com pequenos sketches que trouxeram à cena os pequenos quotidianos hoje esquecidos ou mesmo desconhecidos dos mais jovens.


Foi, como sempre, um espetáculo divertido, mas sério, e às vezes emotivo, não deixando ninguém indiferente.



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Importa deixar registado que neste aniversário “redondo” da revolução dos cravos, a equipa de professores que  esteve à frente desta empresa (Ana de Carvalho, Joana Jacob, José Morgado, Júlia Quadros, Maria João, Zita Luís) fez questão de extravasar os limites do Agrupamento Nuno de Santa Maria e convidar o Jardim-Escola João de Deus, a Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, a Universidade Sénior de Tomar e o Agrupamento de Escolas de Ferreira do Zêzere para participarem diretamente na celebração do 25 de Abril. 


De facto, foi particular gratificante verificar que tantos, vindo de tantos lados, partilharam as mesmas convicções e o mesmo empenho em não deixar esquecer a luta pela liberdade e pela democracia.


E para terminar em beleza, o autor do livro “Era uma vez o 25 de Abril”, José Fanha, esteve presente neste dia 17 e fez questão de ele próprio, na primeira pessoa, declamar em palco o poema com que terminaria o espetáculo:



Nós nascemos para ter asas meus amigos.

Não se esqueçam de escrever por dentro do peito:
nós nascemos para ter asas.

No entanto, em épocas remotas
vieram com dedos pesados de ferrugem
para gastar as nossas asas assim
como se gastam tostões.

Cortaram-nos as asas
como se fôssemos apenas operários obedientes,
estudantes atenciosos,
leitores ingénuos de notícias sensacionais,
gente pouca,
pouca e seca.

Apesar disso,
sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas transparentes,
afirmam que as asas dos homens crescem mesmo depois de cortadas,
e, novamente cortadas
de novo voltam a ser.

Aceitemos essa hipótese,
apesar de não termos dela qualquer confirmação prática.

Por hoje é tudo.

Abram as janelas.

Podem sair.



 

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(Fotos tiradas por alunos do Curso Profissional de Técnico de Multimédia)
Dia 26/04


Dia 17/05



quinta-feira, 25 de abril de 2024

Exposição “O livro escolar no Estado Novo”

No âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, está patente na biblioteca da Escola D. Nuno Álvares Pereira, de 15 a 30 de abril, a exposição “O livro escolar no Estado Novo”, aberta a toda a comunidade educativa. 


Durante este período da nossa História, com a política do livro único, alguns destes manuais de leitura estiveram em vigor durante décadas, ensinando gerações de portugueses a ler e transmitindo-lhes os princípios ideológicos da ditadura salazarista. Para os mais velhos, a visita à exposição será uma viagem ao tempo de infância, já para os alunos é uma experiência muito realista sobre a escolaridade durante o Estado Novo.

Mas esta não é só uma exposição de livros escolares e dos seus conteúdos, já que ela recria toda a envolvência de uma sala de aula do ensino primário, desde os materiais didáticos como a “pedra” ou ardósia, as carteiras com os seus tinteiros e canetas de aparo ou os cadernos de 2 linhas. Além destes materiais, estão também presentes os recursos “pedagógicos” usuais na época, como a palmatória (menina dos 5 olhos), a régua e a cana. 


Na abertura da exposição foi feita uma excelente representação de uma aula por seis alunas do 6º G, tendo depois usado da palavra a Diretora do Agrupamento Nuno de Santa Maria e a vereadora da autarquia, Rita Freitas. Esta atividade é organizada pela área disciplinar de História, em colaboração com a biblioteca escolar Pedro Seromenho e o clube + Humanidade.





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O Livro escolar no Estado Novo




quarta-feira, 10 de abril de 2024

Canta-me como foi há 50 anos!

Era uma vez o 25 de abril

Baseado no livro “Era uma vez o 25 de abril!” de José Fanha, é um espetáculo em que se celebra a democracia e a liberdade, através do poder da palavra, do audiovisual, da dança e da música.

Concebido, ensaiado, dinamizado e apresentado por professores e alunos do Agrupamento de Escolas Nuno de Santa Maria (Tomar) e do Agrupamento de Escolas Ferreira do Zêzere, este é um projeto comum aos dois Agrupamentos e que terá lugar nas duas localidades.

O espetáculo contará ainda com a participação de outras estruturas parceiras: o Centro de Formação Artística da Sociedade Filarmónica Gualdim Pais através do ensino articulado da dança, a Universidade Sénior de Tomar com os alunos de teatro e a Fundação Maria Dias Ferreira através dos alunos do Clube de teatro. 

  • Em Tomar, nos dias 26 de abril e 17 de maio - Cineteatro Paraíso
  • Em Ferreira do Zêzere, no dia 25 de abril - Centro Cultural Alfredo Keil

Apesar de gratuito, para assistir ao espetáculo é necessária a reserva de bilhete.

quarta-feira, 6 de março de 2024

CANTA-ME COMO FOI... há 50 anos!

Era Uma Vez o 25 de Abril!

No âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de abril, os Agrupamentos de Escolas de Ferreira do Zêzere e Nuno de Santa Maria - Tomar, estão a organizar um espetáculo em conjunto dirigido às comunidades, no dia 25 de abril (no Centro Cultural, em FZZ) e dia 26 de abril e 17 de maio (no Cineteatro, em Tomar).

Os "implicados"

Este espetáculo, inserido nos projetos culturais dos dois agrupamentos, é inspirado no livro "Era uma vez o 25 de abril" de José Fanha, e celebra a democracia através do poder da palavra, do audiovisual, da dança e da música. A sua planificação está a cargo de um grupo de professores dos dois agrupamentos e conta com a participação dos dois municípios e de outras entidades.

A "Comissão de Festas"

No passado dia 24 de fevereiro, quem organiza e quem apoia, juntaram-se na Fundação Maria Dias Ferreira, em Ferreira do Zêzere, para uma sessão oficial de abertura e organização. Aqui ficam as evidências.




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25 de abril AEFZZ e AENSM




terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Cantar e contar Abril

 Na Biblioteca da ESSMO, que se pretende que seja um espaço vivo e dinâmico, deu-se início a uma série de encontros para "Cantar e contar Abril". 


Ouviram-se canções de Abril, "Maré alta" (Sérgio Godinho) e "Canção de embalar" (Zeca Afonso) e o poema de Manuel Alegre "Abril de sim abril de não".

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Conntar e cantar Abril - 18/01/24




sexta-feira, 10 de novembro de 2023

A Biblioteca ConVida a criar e imaginar...

No dia 9 de novembro, a turma do 12º F2 deu vida à Biblioteca da ESSMO e forma às palavras de José Carlos Ary dos Santos a partir da audição do poema: "As portas que abril abriu".



sexta-feira, 19 de maio de 2023

Celebrar a Liberdade

A cada primavera, o tempo mágico da mudança para um tempo sempre novo. Tempo que antecipamos eivado de justiça, igualdade, partilha, respeito pela identidade de cada um e de cada uma porque, a cada instante, somos instados a inquietarmo-nos com os flagelos, a desumanidade que nos chegam de muitos cantos do mundo. Sabemos que todos os direitos são fundamentais. No entanto, todos eles nascem daquele que é considerado o primacial: a liberdade.

Um grito que se repete de geração em geração

Desde abril de 1974 que temos a feliz experiência de vivermos em liberdade, manancial glorioso; aqueles, muitos, que nasceram durante a ditadura e a maioria que, afortunadamente, não conheceu esses tempos de má memória, do confinamento da identidade cívica.

“Não há machado que corte a raiz ao pensamento”, verso poderoso que, simbolicamente, representa o garrote da ditadura e o promissor horizonte da liberdade.

Porque os cravos somos nós que os fazemos

Figuras heroicas da resistência ao Estado Novo são-nos geograficamente muito próximas (Salgueiro Maia, Humberto Delgado). Emocionalmente, civicamente, vivem connosco. Admiramos o seu altruísmo, a sua ousadia, a sua coragem em dizer NÃO, num tempo em que assumir a heterodoxia punha em perigo a vida pessoal, familiar e profissional. E a própria vida.
Salgueiro Maia viveu alguns anos em Tomar e o “General Sem Medo” nasceu no concelho vizinho de Torres Novas.

Com a participação da Universidade Sénior de Tomar

Celebrar a liberdade e o que ela possibilita a cada um e a cada uma na sua caminhada existencial é, mais que um pulsar de cidadania, uma obrigação moral. E se a esse desígnio se associar a fruição artística (a música, o canto, a dança, o teatro, as artes plásticas), o encantamento vai muito além da brevidade das coisas. E fica enraizado em cada um e em cada uma, no longo pulsar da memória.

Um espetáculo em forma de "ensaio"

Neste âmbito, a Tuna Sabes Cantar (um notável projeto artístico do Agrupamento de Escolas Nuno de Santa Maria, prestes a comemorar 29 anos de existência, composto por atuais e antigos professores, funcionários, encarregados de educação e antigos alunos) tem apresentado, ao longo dos anos, no Cineteatro Paraíso, espetáculos de admirável envergadura artística, de celebração do 25 de Abril e do que este dia representa na construção do mundo novo, livre e moderno, que trouxe aos cidadãos deste país.

A Tuna Sabes Cantar a cantar a Liberdade

Lado a lado, com casa sempre cheia, com a Tuna Sabes Cantar, participa nos espetáculos a Prata da Casa (composta por atuais alunos) e um plural coletivo de artistas convidados.


A Prata da Casa a celebrar as canções de Abril


O belíssimo espetáculo deste ano antecipa a celebração dos 50 anos da revolução de Abril. E, por isso mesmo, teve como título “O Ensaio”, composto por magníficos momentos de criatividade artística, de reflexão. E de encantamento para o vasto público.

A diretora do AENSM, o delegado Regional de Educação e a coordenadora do PNA



E, no dia 26 de abril, no mesmo local, realizou-se uma outra e igualmente feliz festa da democracia e da cidadania, com o “Celebrar o 25 a 26 no Paraíso”, organizada pelo Projeto Humanidades +, desta vez para todas as turmas do 6.º, 9.º e 12.º anos do Agrupamento.

O cartaz realizado pelos alunos






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Canta-me como foi




segunda-feira, 1 de maio de 2023

Somos Netos da Liberdade

No Clube Ubuntu gostamos muito de ouvir o que os mais pequenos têm a dizer sobre os mais diversos assuntos.

Desta vez fomos ouvir os alunos do 4º ano falar sobre ditadura e liberdade.

Esperamos que possam viver as suas vidas sempre em Liberdade!

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Celebrar o 25 a 26 no Paraíso

Celebrar o 25 de Abril
26
Cineteatro Paraíso



No hemisfério norte, abril tem um significado muito especial. É verdade que a Primavera começa no mês anterior, mas é neste que a Mãe-Natureza nos presenteia com os encantamentos que associamos a esta época do ano: a cor, o brilho, a pujança, a renovação, a metamorfose das paisagens por onde corremos, por onde se espraia o olhar e o pensamento.

Em Portugal, além desse maravilhamento estético e emocional, celebramos a Revolução que nos trouxe de volta a democracia e a liberdade, passados quase cinquenta anos de ditadura. Mais precisamente, longos quarenta e oito anos, de 1926 a 1974; primeiro, a ditadura militar e, a partir de 1932, a ditadura salazarista ou Estado Novo, até ao 25 de abril de 1974.

Os militares, em 1926, através de um golpe de Estado, puseram fim à democracia. E são eles que a trazem de volta, em abril de 1974.

Celebrar a democracia e a liberdade é um dever cívico de cada um e de cada uma, sempre. Nos tempos que correm, ainda mais, porque em muitos países, em várias regiões do mundo, os regimes democráticos estão sob ataque cerrado de movimentos neofascistas, xenófobos e racistas. E tudo o que se faça para valorizar a liberdade e a democracia é vital para a formação dos jovens cidadãos.

E foi nesse contexto da formação humanista e da cidadania, que o Projeto +Humanidades, do Agrupamento de Escolas Nuno de Santa Maria, planeou e deu corpo à atividade “Celebrar o 25 de Abril”, no Cineteatro Paraíso, a 26 de abril, para todas as turmas que frequentam o 6.º, 9.º e 12.º anos.

Mais de 400 alunos no cineteatro Paraíso

A professora Angelina Oliveira, na qualidade de vice-coordenadora do Projeto +Humanidades, deu as boas-vindas ao vasto e vibrante público que encheu, por completo, o Cineteatro, e enunciou os objetivos que presidiram à celebração, como atrás se enunciou, realçando que é na junção e na partilha que se alcançam os melhores resultados, querendo com isso reforçar que, na realização da atividade, participaram vários projetos do Agrupamento, várias pessoas – a título individual ou integradas num coletivo - muitas vontades, perspetivas plurais e sensibilidades, que se ajustaram harmoniosamente a um propósito maior.

Prof.ª Angelina Oliveira

Logo após, o Projeto “Um Gesto de Afirmação” apresentou uma admirável performance de dança contemporânea, pelas bailarinas Inês Morgado, Margarida Santos, Francisca Araújo e Erica Carreira. A coreografia, original, é obra das jovens executantes. Ao mesmo tempo, a Mariana Rei, do mesmo Projeto, e aluna do 12.º ano, turma B, de Humanidades, dizia um poema da sua autoria que, pelo seu significado, beleza, sensibilidade e vasto território poético, se transcreve.

A junção de música, movimento e palavras


Encontrar a felicidade, num Portugal Livre

Tenho medo

Tenho medo de falar,
tenho medo de abrir a porta,
tenho medo de sair.
Não tenho onde ir,
fico em casa, onde pertenço
sou parte da mobília, já com pó.
Com as lágrimas desgasto o lenço,
fico sempre no mesmo lugar,
não posso rir, posso chorar
de mim ninguém tem dó.

O meu marido foi preso,
faz hoje 8 semanas e 4 dias
não tenho notícias dele
não sei o que lá lhe fazem,
quando comprou ao nosso mais novo
uma banda desenhada estrangeira 
comprou um bilhete só de ida,
e de uma ou outra maneira
não tivemos direito a despedida.

A minha irmã queria ser enfermeira,
entretanto arranjou um rapazito
mas tal como já lhe tinham dito
era preciso ser solteira.

A minha outra irmã viu também o marido
passar uma noite na prisão
por lhe ter dado um beijo num jardim
quando este regressou da guerra.
Sempre com o coração na mão
pensou que dessa é que era o fim.

Que tempo é este, em que vivo?
Deus, estou a perder a fé
Pátria, não pertenço a este país
Família, foi me tirada.
Tudo o que não quero, nem nunca quis,
é o que vivi e estou a viver
queria saber ser feliz
oh, lá vão esses dias…

Estado Novo,
já não é novo, já dura tempo a mais.
Ditadura, quando é que cais?

Tantos lutaram, nas colónias e mesmo cá, 
país dos cofres cheios e dos bolsos vazio
tantos sofreram, tantos morreram
tantos foram, e não regressaram
tantas bocas caladas à força
tantos olhos tapados
e ouvidos surdos
tanta falta de liberdade
tantos jornais mudos.
Só crescia a vontade
de uma mudança de regime.

Agradeço aos capitães
que nos libertaram deste jogo político
do qual éramos reféns.

Semearam cravos
colheram liberdade 
enterraram a censura
e mudaram a sociedade.



A Mariana Rei, convidada para apresentar a atividade no Cineteatro, continuou, exemplarmente.


.  
«Estamos aqui para celebrar Abril, o 25 de abril, a revolução que nos trouxe de volta a democracia.
O capitão Salgueiro Maia, o rosto da Revolução que simboliza o triunfo da liberdade sobre a ditadura está muito ligado a Tomar, cidade onde viveu parte da sua adolescência.

E da noite mais escura, uma flor se ergueu, raiada de luz, prenhe de toda a esperança.
Tão longa a espera.
E da longa espessura da noite, quase 50 anos, a aurora radiosa para um mundo novo. Para um Portugal livre.

Santarém. Madrugada de 25 de abril de 1974.

Chegou a hora. Não é possível esperar mais.
No quartel, os camuflados são vestidos à pressa e o Capitão passa a mensagem de boca em boca “Camaradas, que ninguém esmoreça. A vitória é nossa, antes que anoiteça!”
Sobre o último casario da cidade e sobre a cabeça da coluna que se dirige para Lisboa, um bando de corvos grasnava com vigor. O jovem Capitão, de nome Salgueiro Maia, não se deixou impressionar com as aves de mau agoiro e comentou com o seu ajudante:
- Há um mês não deu certo. É agora!
O jovem capitão referia-se à última tentativa dos militares para derrubarem a ditadura do Estado Novo, que começara no quartel das Caldas da Rainha, em 16 de março de 1974. A tentativa fracassou e os oficiais foram presos.

Nós sabemos. Todos nós sabemos: não há nada de mais sagrado que a LIBERDADE».


major-general Adelino Coelho (ao centro) e o coronel Luís de Albuquerque (à direita)
 
Depois, apresentou os dois convidados: o major-general Adelino de Matos Coelho e o coronel Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque.

O primeiro palestrante foi um dos corajosos oficiais do Golpe das Caldas da Rainha. Oficial-general com um vastíssimo currículo, era tenente no quartel das Caldas da Rainha, quando integrou a última tentativa para derrubar a ditadura. Como afirmou, o golpe não foi tão bem preparado quanto seria desejável e acabou por fracassar – como haviam fracassado mais de uma dezena de tentativas - tendo os oficiais sido presos e libertados só após o 25 de Abril. Enquadrou o seu testemunho entre o golpe das Caldas e o curto espaço de tempo que medeia até à Revolução, bem como da situação insolúvel da guerra colonial em Angola, Moçambique e na Guiné. Como referiu, a longa guerra colonial que começara em 1961 pela recusa do Estado Novo em conceder a independência às colónias africanas, acabou por criar um grande descontentamento entre os militares (pela guerra, em si, e também, pela ultrapassagem dos oficiais formados na Academia Militar por outros que não tinham tido essa formação, criando injustiças na ascensão da carreia) e na sociedade portuguesa. Falou, igualmente, das dificuldades organizativas do golpe e da vigilância sempre muito apertada da PIDE, a polícia política do Estado Novo, bem como dos ensinamentos retirados do fracassado Golpe das Caldas para não serem repetidos no 25 de Abril. Otelo Saraiva de Carvalho, um dos estrategas do 25 de Abril, esteve na organização do Golpe das Caldas. Felizmente, não foi preso. Aprendeu com os erros e pôde preparar com eficácia a Revolução triunfante.

A importância do 16 de março para o 25 de abril

Entre o fim da primeira palestra e a segunda, os professores Júlia Quadros, José Morgado, Isabel Gamelas e Isabel Carvalho cantaram “Trova do vento que passa”, de Manuel Alegre e António Portugal, gravada em 1963 e popularizada por Adriano Correia de Oliveira.

Júlia Quadros, Isabel Gamelas, Isabel Carvalho e José Morgado

O segundo convidado, o coronel Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque começou por contar como viveu o 25 de Abril. Era um adolescente de onze anos e não foi à escola porque, na cidade onde vivia, o Porto, os militares tinham tomado conta das ruas e se vivia um dia muito diferente de todos os outros. Ele, a família e as pessoas, em geral, seguiam o desenrolar da Revolução através da rádio e da RTP (a preto e branco). Salientou o papel do capitão Salgueiro Maia, de Otelo Saraiva de Carvalho no sucesso do 25 de Abril, dos momentos de tensão e de quase confronto entre militares a favor e contra o fim da ditadura. Por fim, abordou o período de grande instabilidade que sucedeu ao 25 de Abril, até à vitoria definitiva da democracia em Portugal, consagrada na Constituição de 1976.

 Coronel Luís Paulo Correia Sodré de Albuquerque

Ao mesmo que o coronel Luís de Albuquerque apresentava a sua comunicação, a Anaís Fernandes, aluna de Artes, do 11.º F, pintava o retrato do celebrado cantautor Zeca Afonso, criador de “Grândola, Vila Morena”, canção-símbolo da Revolução do 25 de Abril de 1974.

Anaís Fernandes a pintar "ao vivo"


E mais palavras, lidas pela voz bem calibrada da Mariana Rei.

«Das profundas mudanças que o 25 de Abril trouxe à sociedade portuguesa, uma das mais notáveis foi a igualdade de direitos para as mulheres. Até aí, numa sociedade conservadora e machista – e com um estatuto de subalternidade relativamente aos homens – as portuguesas passam a afirmar-se e a poder ocupar todas as profissões e papéis sociais.

A terceira convidada, a piloto Lígia Albuquerque, um dos espelhos dessa mudança, infelizmente, por motivos de saúde, não pôde estar presente. Nascida e criada no Porto, tem mais de duas décadas a competir nas várias modalidades do automobilismo: campeonatos de velocidade, ralis e todo-o-terreno. Tem ainda a melhor classificação nacional no campeonato WRC (senhoras).»



Em solidariedade para com a intrépida piloto, foi apresentada a sua nota biográfica e um breve testemunho, em vídeo, elaborado pela Mariana Rei.

A celebração continuou com mais uma notável intervenção musical, a cargo de alguns alunos da Prata da Casa: Anaís Fernandes, Francisca Porto, David Miño, Carolina Freitas, Joana Pereira, Pedro Marques e dos professores José Morgado, Júlia Quadros, Isabel Carvalho e Isabel Gamelas.

A "Prata de Casa"

Numa breve intervenção, antes de se juntar aos restantes cantores, a Anais Fernandes explicou o contexto e o significado do retrato que pintou de Zeca Afonso, com a técnica de acrílico sobre tela. E diga-se sem rodeios, com grande mestria.

Num misto de recato na comunicação e de orgulho em Zeca Afonso, a Anaís falou da estória que está por detrás do retrato do cantautor. Zeca Afonso estava no exílio em Paris, França, e preparava-se para participar numa manifestação que exigia o fim da ditadura em Portugal.

A história deste retrato por Anaís Fernandes

Foram feitas resmas de cópias de cartazes com este retrato, para serem utilizados nessa manifestação. Entretanto, dá-se a Revolução do 25 de Abril e Zeca Afonso regressa a Portugal o mais rápido que pôde. Por essa razão, o seu retrato deixou de ter, felizmente, a função a que se destinara. A democracia e a liberdade haviam triunfado no nosso país.

Alunos e professores a cantar abril

Após os belíssimos momentos musicais, e dos prolongados e mais do que merecidos aplausos, foi apresentado um vídeo, com o testemunho de alguns alunos do 4.º ano que frequentaram o Clube UBUNTU. No registo efetuado, expressaram com clareza e espontaneidade o que pensam sobre “ditadura” e “liberdade”.

O cartaz do 25 de abril feito pelos alunos

A Diretora do Agrupamento, professora Celeste Sousa, valorizou a atividade e saudou os seus promotores, os objetivos a que se propuseram, centrados no humanismo, na cidadania e na apologia dos valores democráticos. Agradeceu, também, aos ilustres convidados e aos alunos, que acolheram com entusiasmo a celebração coletiva.

Celeste Sousa no uso da palavra

Por sua vez, a professora Angelina Oliveira, em nome do Projeto +Humanidades, agradeceu a todos os intervenientes: Um Gesto de Afirmação (dança; declamação de poema e apresentação da atividade, na pessoa da Mariana Rei); Arte+ (cartaz e programa); convidados (major-general Adelino de Matos Coelho e coronel Luís Sodré de Albuquerque); professor José Paulo Vasconcelos (fotografia); Clube UBUNTU (registo vídeo); Prata da Casa (coletivo de alunos e professores: Anaís Fernandes, Francisca Porto, David Miño, Carolina Freitas, Joana Pereira, Pedro Marques e dos professores José Morgado, Júlia Quadros, Isabel Carvalho e Isabel Gamelas); a professora Lisete Lapa e os alunos do Curso Profissional de Multimédia (gravação vídeo); Fernando Paulo (técnico de som), aos alunos e professores acompanhantes, que contribuíram generosamente para o êxito da iniciativa, simultaneamente tão rica, tão plural e, por isso mesmo, tão gratificante.


A terminar a atividade, um momento-surpresa com os alunos do 6.º C, a cantar “Grândola, Vila Morena”, a capella, com o público a acompanhar. Em uníssono.

Unidos pela voz

José Sobral



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25 de Abril