quinta-feira, 12 de março de 2026

«E em vez do medo»

Exposição

O medo é uma entidade (emoção natural e instintiva) tão antiga como a Humanidade e um hóspede sedentário na casa da criação. Entra pela sala dentro sem bater à porta, apodera-se do pensamento e perscruta, em silêncio, quem ousa inventar e reinventar o mundo. É uma presença acéfala e ambígua, como uma sombra que acompanha o artista quando a imaginação, primeiro, e depois, a obra começam a crescer, a tomar forma. Criar é mostrar-se. É pôr de lado as máscaras do silêncio e permitir que o interior de cada um e de cada uma se torne visível, expondo a identidade e a essência, o mundo mais profundo e íntimo de cada ser.


 

O artista sabe que a obra não é apenas o resultado de um exercício técnico – é uma revelação. Quem cria aprende, pouco a pouco, que não é necessário expulsar o medo. É preciso atravessá-lo. Abracemos, pois, as palavras sábias de Marta Bernardes “...não buscamos negar o medo, mas transfigurá-lo”. E essa peregrinação comporta hesitações, dúvidas e avanços, ora tímidos ora impetuosos. O medo impede a repetição, o minimalismo. E lembra ao artista que o ato de criar é sempre um risco. Possibilita a aceitação plena e a rejeição.


O medo empurra cada artista para caminhos e territórios onde ainda não esteve e obriga-o a experimentar, a errar, a recomeçar. A destruir e a reconstruir. Ele nunca desaparece completamente. Surge sempre que um novo projeto começa, sempre que uma ideia solicita forma, uma estrutura. Mas já não é um visitante ameaçador. É quase um companheiro de viagem, lembrando ao artista que cada criação importante nasce na fronteira entre o conhecido e o desconhecido. Em suma, o medo é retração e catapulta.


Neste contexto, e tendo o medo por companheiro no processo criativo, a turma C, do 12.º ano, foi a protagonista de uma atividade pluridisciplinar, realizada no Polivalente da ESSMO, no dia 4 de março, em que associou trabalhos realizados nas disciplinas de Desenho, Oficina de Artes e Português. Na disciplina de Desenho, foram tratadas duas unidades de trabalho: a primeira, o “cadavre exqui” e, na segunda, o movimento, o ritmo e o tempo no Desenho. Em Oficina de Artes, a contenção e a tridimensionalidade, com a realização de múltiplas esculturas em barro, espelhando os medos que cada aluno considerou por bem abordar. Na disciplina de Português, foi feita a redação de textos alusivos ao medo e ainda a apresentação de performances de poemas de autores portugueses, selecionados pelos alunos.


 

A atividade realizada integra a 2.ª Bienal Cultura e Educação, do Plano Nacional das Artes, cujo tema é “E em Vez do Medo?”.

José Manuel Sobral


O medo no pensamento e nas obras executadas pelos alunos.

“Voa para onde te sintas mais seguro”

“Pode haver muitas razões que nos fazem sentir medo, a minha escultura representa o que nós podemos fazer quando sentimos medo, apanhar um voo e “voar” para longe dele, para qualquer sítio que nos faça sentir seguros. (...) E em vez do medo, escolhi estar onde me sinto mais livre.
Tomás Kay

Esperançoso



“O medo é aquela sensação que surge quando somos impedidos de cumprir algo. Ao esculpir um trevo de quatro folhas em cada olho, pretendi transmitir que a esperança e o sonho têm o poder de encorajar. E em vez do medo, escolhi a esperança, a vontade, o sonho.”

Maria Beatriz Almeida

As expressões do riso



“Medo, sensação de desconforto, receio perante algo (...) Os sorrisos, as gargalhadas, o choro de tanto rir, um mostrar de dentes e uma boca aberta fazem parte do meu dia a dia e utilizo-os como ferramenta para enfrentar as inquietações. (...) Espero que cada espetador encontre, no meu busto, um refúgio e uma forma diferente de interpretar a sua inquietação. E em vez do medo, escolhi o riso.

Duarte Xavier

Coragem

O medo é um sentimento que nos impede de sair da nossa zona de conforto (...) No momento de superação é necessário usar métodos como o rir ou olhar para as pessoas próximas e ter a coragem de enfrentar as situações. Esta figura com vários olhos a olhar em diversas direções, representa os olhares das pessoas que nos julgam (...). E em vez do medo, escolhi a coragem.
Leonor Benedito

Confronto



O busto apresenta um aspeto diabólico, os chifres têm como significado a proteção, os olhos arregalados expressam todas as vezes que enfrentamos o medo. E em vez do medo, escolhi o confronto.

Inês Ventura

Coragem

O medo... uma emoção extremamente complexa e desafiante, muitas vezes, associada a algo que não conseguimos ultrapassar (...) a coragem por detrás de um olhar semicerrado, persistente e focado, a vitória que só a coragem lhe proporciona. E em vez do medo, escolhi a coragem.

Verónica Bernardo

Sentimento




(...) o medo, este sentimento que sufoca, que nos atormenta e apavora, o que vem depois dele? A esperança de ultrapassar e conquistar os medos. E em vez do medo, escolhi a esperança.


Carolina Calado






Medo, sensação de impotência,
Vulnerabilidade,
Falta de capacidade de desvalorizar
Ou enfrentar aquele obstáculo.
Ousar duvidar da hipótese de ultrapassar...
E deixar-se gradualmente consumir,
Optando por fingir
E existir uma serenidade que não existe,
Uma tranquilidade que persiste
Numa mente que te mente
E que se torna impotente.
E para além do medo?
Para além desse sufoco silencioso e poderoso,
A coragem avança, trémula, mas serena.
Desafiando o medo de forma plena,
Sem certezas ou segurança,
Mas mantendo a esperança,
Prossegue e avança,
Lutando pela mudança.
E no momento em que o medo cai
E descobre que perdeu,
A coragem sobressai,
Revelando que venceu.
Verónica Bernardo

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