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quinta-feira, 10 de março de 2022

Cool Girl e o Príncipe Encantado

Dizem-nos o que ser e quando o ser. Sentimo-lo connosco todos os dias, algo invisível e que apenas pesa no ar. Passam-se anos, décadas, séculos e este algo teima em ficar. Entra pelos nossos ouvidos, infiltra-se nos nossos pensamentos e faz-nos acreditar. Acreditar que podemos reduzir uma pessoa a uma personalidade, a um género, a uma idade, a um estereótipo, a um momento.

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— A mulher ideal é silenciosa. Dedica-se aos filhos e às lidas domésticas. Deve, sempre, satisfazer as necessidades do marido. Deve rir, mas não muito. Não muito alto. Talvez deva só sorrir e ser simpática. Simpática e submissa. Culta e inteligente. Mas não muito, não mais do que os outros. Não pode ser extravagante, mas, sim, pura e inocente. Deve evitar ser independente e evitar ser ela própria. Deve, a todo o custo, limitar-se a uma versão da sua personalidade que seja aplaudida pela sociedade. Deve, sim, sempre. Sejam femininas! Por outro lado, o homem ideal tem de ter ideias convictas. Tem de pensar por si. Tem de ser o chefe de família. Deve manter uma imagem desmedidamente autoritária, intransigente, insensível e forte, muito forte. Deve limitar as emoções. Não pode ser maricas, não. Maricas nem pensar. Corajoso, muito corajoso. Deve gostar do que está estipulado. Pode variar entre desporto, caça e ciências exatas. E, acima de tudo, nunca, nunca chora. Aliás, um homem nem sequer é dotado dessa capacidade. Sejam viris!

— Passou muito tempo. Fizeram-se revoluções. Houve mudança. Ai, como soa bem. Mudança. Rutura. Evolução. As mulheres saíram e educaram-se verdadeiramente. Pensaram e decidiram mudar. Os homens, depois de salvarem a vida uns aos outros, também mudaram a sua perspetiva. Evoluímos. Evoluímos todos. E a sociedade?

— A mulher ideal não tem tempo. Não tem tempo para nada. Finalmente, conseguiu provar que conseguia fazer tudo. Privilegia a sua educação e a sua formação. É extrovertida, engraçada, ri-se das piadas, mas não as leva a peito. Tem de achar piada. Gosta daquilo de que antes não gostava. Não gostava nem podia gostar. Mas é melhor que não se afaste muito do que é suposto… Tem de preservar o seu lado feminino. O que nós, sociedade, consideramos como feminino. É independente, cuida de si, mas também dos seus. Já não precisa de querer ser mãe. Não precisa, mas também não lhe custa nada. Deve gostar de crianças. E de homens também! Não queremos solteironas. Deve ser apaixonada, carismática, sensível. Um espírito livre, mas que no fundo quer assentar. Deve ser “diferente das outras”. Deve ser tudo o que um homem procura: cool girl.

— Não vamos complicar o que é simples.

Laura Ferros Azevedo
O homem ideal… Bem… Nem nós sabemos. Deve proteger a sua veia histórica de cavalheiro, mas com cuidado que nós agora misturamos boa educação com machismo. Deve consagrar a sua posição no meio de uma dualidade de critérios. Critérios opostos. Na dúvida da obrigatoriedade de ter de dar o primeiro passo, como manda a lei, e, simultaneamente, aprender a não se sentir inferiorizado se tal não acontecer. Deve manter os valores antigos e mudar para os novos. Agora, tanto condenamos um homem que chora como um que não o faz. Glorificamos o homem que vai à frente, que protege a família, mas, ao mesmo tempo que lhe chamamos machista, chamamos-lhe maricas, se não o fizer. A verdade é que caímos em extremos com facilidade. É o novo príncipe encantado, que de novo não tem nada, mas tem de ter tudo. Este é o homem ideal que aprendeu a viver com uma bipolarização dos conceitos que lhe impomos.

— E se não quiserem ser homem, nem mulher? Não podemos ser nós próprios?
Vamos sim. Não será a personalidade de uma mulher e de um homem um espectro colorido e versátil? Um pouco de tudo o que já viram, de todos aqueles que conheceram e de todos os lugares por onde passaram? Um mosaico de talentos, medos, conquistas, gostos, pedaços de memórias e de sonhos dispersos? Uma dimensão superior daquilo que são, daquilo que nunca foram e daquilo que serão? Não será a personalidade do ser humano algo tão vasto e tão único que faz destes critérios “masculino e feminino” apenas rótulos de ilusões? Não podemos nós, numa sociedade que define o que está certo por modas, sermos apenas nós próprios? Não podemos nós respeitar as escolhas de cada um? Não podemos nós respeitar a decisão de um homem ficar em casa com os filhos, enquanto a mulher vai trabalhar, se ambos assim o entenderem? Nós somos a sociedade, nós provocamos a mudança.



Laura Ferros de Azevedo


quarta-feira, 9 de março de 2022

De Mulher Pra Mulher

Ágata e Romana, num célebre poema da música popular portuguesa, cantam-nos com o sofrimento de quem detém um coração estilhaçado por um mesmo homem com promessas vãs de amor que nunca chegaram a ser cumpridas. Numa melodia exalando mágoa e angústia, falam “de mulher pra mulher / e de igual para igual”, empatizando de parte a parte com as suas experiências, afinal de contas tão iguais. 
Apesar do tom discretamente satirizante com que falo desta música, tomo-a como mote para vos introduzir uma temática da extrema importância: Sororidade.

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Qual a etimologia e o significado da palavra sororidade?

Derivado do latim soror que significa irmã, a palavra sororidade, conforme definição presente no dicionário infopédia, refere-se à relação de união entre mulheres, idêntica à que habitualmente se encontra entre irmãs. Diz respeito à solidariedade feminina, unindo mulheres com um mesmo propósito.

Parece poder atribuir-se a Katherine Murray Millet (1934-2017), escritora e ativista feminista americana, a difusão do conceito de sororidade, na década de 70, e é desde então amplamente utilizado.



Qual a importância deste tema na atualidade?

Desde os primórdios da humanidade que a larga maioria das sociedades se regia por um sistema patriarcal. De forma sumária, este sistema social destaca o homem enquanto figura de poder em todos os domínios, enquanto a mulher assume uma posição submissa, com direitos e deveres distintos. Já desde o período a.C. que o papel da mulher assentava na educação dos filhos e na gestão doméstica, tendo esta visão redutora da figura feminina perpetuado durante largos séculos.

A emancipação da mulher e defesa da igualdade de géneros têm anos de história, procurando libertar a mulher da tutela masculina, profundamente enraizada na cronologia da humanidade, como acima foi exposto. Continua, nos dias de hoje, a ser uma luta necessária visto que, apesar das evidentes conquistas ao longo das últimas décadas, as desigualdades entre géneros são ainda gritantes na sociedade nossa contemporânea.

É nesta contante e infelizmente ainda atual e necessária luta que a sororidade assume um papel de particular relevo. Mantenhamos no pensamento a célebre frase “a união faz a força”: é numa união de similares, mulheres com vivências semelhantes, sofrendo com os mesmos preconceitos impostos pela sociedade, que se avança em prol da mudança. É isto a sororidade, uma junção de forças no feminino em prol de uma demanda comum: o empoderamento, a emancipação e defesa da igualdade de direitos entre géneros.



E, nesta celebração do Dia Internacional da Mulher, que este conceito acerca do qual hoje escrevi vos rumine no pensamento e de que dele não se esqueçam. Que recordem a grandiosidade do percurso da mulher que tem arduamente batalhado para que hoje vocês, jovens mulheres que estais a ler este texto, possam estudar, trabalhar, votar ou até mesmo sair à rua sem serem acompanhadas. Recordem-se de que foi à custa da empatia e união de mulheres corajosas, determinadas e ambiciosas, que hoje podemos fazer tudo isto. No entanto, há ainda um longo caminho para percorrer em busca da igualdade de género e aqui vos digo, “de mulher pra mulher / e de igual para igual”, que somos fulcrais agentes de mudança, em união fraterna pelas mulheres de hoje e amanhã.


Ana Figueiredo

terça-feira, 8 de março de 2022

O Novo Paradigma De Mulher

Inês Graça

Faz parte da natureza humana, tanto no homem como na mulher, receber informação e sentir a necessidade de criar um sistema para a classificar. Como que arquivar informação que se relaciona e atribuir-lhe uma designação específica, um rótulo.

“Mulher” / “Criar” / “Rótulo”

São estas as palavras chave deste texto. Texto este onde exponho o novo protótipo de mulher - atenção! mulher, e não figura feminina. Não se trata da Laura de Petrarca, da “fada do lar” do século XX ou mesmo da tão atual “Cool Girl”, mas o próprio paradigma do não paradigma.

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Afinal, quem é a mulher de hoje?

A menina introvertida e sensível.

A “maria rapaz” que joga futebol com os “100% rapazes”.

A rapariga que dá nas vistas com as suas gargalhadas a alto e bom som.

A sensata capaz de moderar qualquer conflito.

A que está a pedi-las por lhe apetecer ir dançar num sábado à noite e mostrar parte do corpo que esta sociedade teima em fazê-la esconder.

A futura senhora doutora e prodígio da família, que não toca numa pinga de álcool e ai dos seus alvéolos se contêm substâncias mais para o alcatrão do que para a hematose pulmonar.



Quando é que vamos perceber que nenhuma destas mulheres existe?

Quando é que vamos perceber que temos uma parte de cada uma delas em nós e é essa mesma semelhança que simultaneamente nos distingue e nos une.

Quando é que vamos perceber que o nosso maior dom não é sermos esposas ou mães, não é gerar vida, mas sim VIVER.

É o sonho, é a possibilidade de transpor esse sonho para a nossa vida.

É poder acordar a cada dia e ser-nos possível ser quem quisermos ser, vestirmo-nos como nos quisermos vestir, comportarmo-nos como nos quisermos comportar – na medida em que não desrespeitemos o outro ou a nós próprias.



Este novo paradigma declara que não há uma, mas somos uma.

Somos uma sendo muitas e todas elas muito diferentes.





Maria Inês Graça


segunda-feira, 7 de março de 2022

Virar a página

Portugal, um país onde não há racismo, não há machismo, não há ismos. O machismo é coisa que não nos afeta em Portugal, machismo é coisa que só há no estrangeiro, como as invasões extraterrestres ou o desenvolvimento económico. Portugal é, assim, um país à parte do mundo, debruçado sobre a perfeição que só um país onde os preconceitos são inexistentes consegue alcançar. Entretanto, por tudo isto, é aconselhada a abertura dos olhos. Inundados hoje num país onde este discurso predomina, percebemos que o progresso que alcançámos nos últimos anos não foi suficiente. Apesar disso, estas vozes continuam. Não sei se lhes hei de chamar ultraconservadores ou ignorantes, ou se caio na redundância de lhes atribuir os dois nomes. O machismo, estrutural e enraizado, existe, em Portugal, na Europa, no mundo, o machismo existe e não pode ser ignorado.

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Quarenta e sete anos passados sobre o vinte cinco de abril, Portugal mudou e o papel da mulher na sociedade tornou-se incomparavelmente mais significativo do que era. No entanto, houve coisas que não mudaram, continuamos a ser governados por homens. Quarenta e sete anos passados sobre vinte cinco de abril e não tivemos uma única mulher como presidente da república. Quarenta e sete anos passados do vinte cinco de abril e primeira-ministra tivemos apenas uma. Quarenta e sete anos depois do vinte cinco de abril, o poder continua vedado à grande maioria das pessoas do sexo feminino. Não quero dizer com isto que devemos escolher ou eleger alguém para um cargo pelo género da mesma, longe de mim dizer isso. Mas custa-me acreditar que num país onde o número de mulheres e de homens é relativamente parecido que seja o demérito que leve a uma ausência de mulheres neste tipo de cargos. Quarenta e sete anos passados sobre o vinte cinco de abril, e ainda estamos assim.

Para além de tudo isto, são as discrepâncias salariais, é a violência doméstica, é o antifeminismo. Sou sincero, às vezes surpreendo-me com esse fenómeno que são as mulheres antifeministas. Como é que uma mulher pode ser antifeminista? É como um homossexual homofóbico ou um ultraconservador inteligente, é contranatura. Aliás, eu já acho contranatura uma pessoa dotada de toda a sua capacidade racional ser antifeminista, agora uma mulher acho o cúmulo. Não cofundamos o feminismo com algumas vozes que para aí se ouvem, o feminismo é muitas coisas, pode ser interpretado de muitas formas, mas a sua essência é única e exclusivamente defender que as mulheres e os homens devem ter os mesmos direitos e oportunidades. Qualquer outra tentativa de colar o feminismo a outros movimentos radicais é pura e simplesmente uma discussão semântica que só nos faz perder tempo e, decerto, paciência.

André Pereira

Além disto, o pináculo do que mais horrendo há na natureza humana: a violência. O crime de violência doméstica é o crime mais praticado em Portugal e não são precisas grandes reflexões para perceber que as mulheres são as mais afetadas por tudo isto. Poderão dizer-me que não são as únicas vítimas, mas nunca poderemos negar que, sejam jovens, adultas ou até idosas, as mulheres são, sem sombra de dúvida, quem mais sofre de violência física e psicológica em Portugal e em todo o mundo. Agravando todo este cenário, deparamo-nos ainda com o facto de que estes dados apenas revelam os casos que foram reportados às autoridades, notando-se que é um crime com uma taxa de reportação baixa. É uma verdadeira gota no oceano de violência que inunda a vida das mulheres todos os dias em Portugal, este país de brandos costumes, em que a violência contra mulheres é costume. Mas que costume menos brando!

Em jeito de conclusão, o machismo parece me um problema longe de estar completamente ultrapassado. A verdade é que, enquanto continuarmos com discussões supérfluas e inúteis, o progresso em termos de igualdade de género continuará lento e pouco significativo. Enquanto continuarmos a relativizar esta problemática, tudo ficará na mesma e é isso a que temos assistido ultimamente. A páginas tantas, esta história tem tantas páginas que começa a ser difícil virar a página. Bora lá virar a página?

André Peixoto Pereira




domingo, 6 de março de 2022

A mulher no cinema

Eu sou uma mulher que tem o sonho de seguir a área cinematográfica, no futuro. Nunca como atriz, não! O meu jeito para atuar equivale a um redondo 0 (zero), mas há algo na possibilidade de poder contar histórias através de imagens que se movem, de criar personagens, cada uma com a sua personalidade e características diversas, de arquitetar mentalmente uma cena e, posteriormente, dar-lhe vida e trazê-la para a tela, que é absolutamente fascinante. Sempre tive a certeza de que isso me faria realmente feliz, mas a verdade sobre a indústria do cinema para a mulher é exaustiva e, francamente, indignante, sendo esta constantemente desvalorizada em cargos de direção, de realização, de cinematografia e de escrita de guiões. Tendo eu, como mulher, este desejo, a realidade é bastante dura e causa-me uma revolta interna inexplicável.

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Ora, se a mulher é uma minoria na indústria cinematográfica, isto leva a que personagens femininas em filmes realizados por homens sejam escritas com uma certa idealização de perspetiva masculina. É difícil para alguém que não uma mulher contar a sua história, o que resulta em personagens totalmente estereotipadas e que se reduzem a um “complemento” do protagonista masculino. Foi realizado um teste, denominado de Teste de Bechdel, que parece bastante simples na teoria, mas os resultados são impressionantes, e não pelo lado positivo. Este tem como objetivo avaliar a inclusão e representação de personagens femininas num filme, e apresenta três perguntas: O filme contém (pelo menos) duas personagens femininas? Essas personagens falam entre si? Tal conversa engloba tópicos que não sejam uma outra personagem masculina?; Infelizmente, o número de filmes (alguns considerados dos melhores e mais vistos) incapazes de responder afirmativamente a estas perguntas é chocante, o que se torna preocupante. Mulheres não são apenas adereços na vida de um homem; Mulheres têm tanto para contar ao mundo, histórias interessantes e detalhadas, têm características diferentes e, certamente, têm, entre si ou não, conversas que não englobem a menção de um homem. Mulheres são muito mais, e é isso que deveria ser representado em filmes, não uma “donzela em perigo” que precisa de ser salva, ou uma rapariga tímida que desperta o interesse do protagonista, ou até mesmo aparecer numa obra com o simples intuito de ser sexualizada. Mulheres são muito mais do que isso.

Como já mencionei, não é só em personagens que a mulher é desvalorizada nesta indústria. Eventos que celebram a excelência do cinema (com premiação) como os Óscares, Globos de Ouro, Directors Guild of America Awards e Critics’ Choice Awards, entre 2008 e 2022 (tremendamente recente, portanto), em 325 nomeações para diretores de filmes, 91,1% dos candidatos eram homens, sendo os restantes 8,9%, então, mulheres. Como se a situação não fosse já suficientemente grave, abordando agora outra repressão, apenas 3 diretoras femininas de origens raciais/étnicas sub-representadas receberam tal reconhecimento de prémios. Estes dados reportam-se apenas aos cargos de direção, porque em áreas como a cinematografia, por exemplo, e respetiva premiação, é ainda pior. Pode-se concluir que prémios que não sejam exclusivamente para um género (por exemplo, o prémio de melhor atriz/ator nos Óscares) têm um predomínio masculino, desvalorizando o trabalho de muitas mulheres que merecem todo o reconhecimento.

É triste que esta seja a atualidade que tantos acreditam ser progressiva quando, na verdade, é ainda uma realidade completamente desigual.

É inegável que o cinema tem um grande impacto na sociedade e na cultura e contribui para que estas sejam moldadas, e é por isto que estabelecer diversidade e igualdade de género na indústria é tão importante. Uma mulher tem uma perspetiva e experiências diferentes das do homem e ambas têm relevância, mas são necessárias mais histórias contadas por mulheres, tal como o reconhecimento de tais. Só uma mulher consegue descrever com total precisão o que é ser mulher e só esta tem o poder de mostrar, através de um filme, o quão maravilhoso é sê-lo, independentemente de tudo à sua volta e quaisquer dificuldades que tenha de ultrapassar. É fundamental mostrar às gerações futuras femininas que estas podem fazer o que quiserem e ser elas próprias, sempre. Todas deviam sentir-se representadas e ouvidas e há ainda um grande caminho a percorrer até a igualdade ser alcançada, mas nós conseguiremos. Porque nós somos mulheres.

Eva Garrucho

sábado, 5 de março de 2022

A dor que não é nossa é normalizada.

Vivemos num mundo em que o ódio é aplaudido, em que a maldade é romantizada, em que a perceção de Bem e de Mal é distorcida. Como é que nós, seres capazes, comandados por uma mente racional, conseguimos considerar uma violação justificável?

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Sexo sem consentimento é violação. Esta é condição suficiente e necessária para a atribuição desse termo. Não escolhe género, idade, lugar, não escolhe roupas. Um “Não” não deixa de ser um “não” pela imagem da pessoa, uma vítima não deixa de ser uma vítima pelo facto de as palavras de justificação do agressor serem mais ouvidas do que as suas.
     
O papel da mulher não é agradar aos homens. Quando nós, mulheres, compramos um vestido, não vemos se está escrito na etiqueta “100% Man approved”. Usar um decote maior, numa saída à noite, não significa que “estamos a pedi-las”. Usar uma saia ou um top que mostre os ombros não tem como objetivo distrair os rapazes. Tudo numa mulher já foi ou ainda é sexualizado. Desde mostrar os calcanhares a amamentar em público, e porquê? Porque estes são os comportamentos que, mesmo sem segundas intenções, fazem na íntegra a culpabilização da vítima ser não só aceite como normalizada.

O que é ser mulher? Recuso aceitar como resposta um “É não ser capaz de estar na rua à noite sem que o pensamento de ser abordada e até violada por um homem lhe passe pela cabeça”. Recuso aceitar um “é ter filhos” ou um “é tratar das coisas de casa” ou um “é casar e servir o marido” ou até “é ter uma vagina”. Ser mulher não se define por nenhum destes fatores, é muito mais do que isso, ser mulher devia ser razão de orgulho e para tantas é razão de medo e vergonha…. Para muitas significa não ter salários iguais, para algumas significa não ter os mesmos direitos que os homens e, para outras, que não são assim tão poucas, não significa absolutamente nada.... Casam aos doze, entregam o corpo que ainda não tiveram oportunidade sequer de conhecer a um homem que não lhes garante respeito, compreensão e amor. Esse amor nem chega sequer a ser uma palavra usada, muito menos sentida, são apenas letras que muitas nem conseguem juntar porque nunca ninguém as ensinou a ler. Aos 15, têm filhos, muitas sem antes passarem pelo terror que é a mutilação genital feminina. Essas são as pessoas que antes de poderem ser meninas, foram obrigados a ser mulheres, mulheres que, no local em que nasceram, por uma questão de pouca sorte, estão para sempre prisioneiras do que para esse povo o conceito de mulher significa.

Muitas morrem sem terem tido a oportunidade de sentir na pele todas as coisas maravilhosas que são ser uma Mulher. Se procurarmos no dicionário sinónimos de mulher não encontramos objeto sexual ou pessoa que acompanha o homem, no entanto, é essa a perceção de uma parte significativa da sociedade.

Mariana Rei
“Rape culture”
não é só um conceito assustador, é a sociedade em que estamos inseridos, é uma sociedade que não condena atitudes sexistas, victim blaming, toque não consentido, etc. Mostrar pele ser visto é visto como um convite e supõe-se que homens não podem ser vítimas de violação, o que leva à sua subsequente desacreditação. Piadas sobre violação, revenge porn, entre outras coisas que criam uma ideia do homem como alguém dominante e sexualmente agressivo e a mulher como submissa e sexualmente passiva.

8 de Março, Dia da Mulher - dia das que lutam por igualdade.
Talvez um dia seja 8 de Março, Dia da Mulher - dia das que podem parar de lutar e começar a viver.

Mariana Rei 11ºB

sexta-feira, 4 de março de 2022

Desigualdade de Género no Desporto

O tiro de partida. A meta. Uma distância igual para todos. Partem todos do mesmo sítio. Será que partem? Fisicamente é verdade, o caminho entre a zona de partida e a meta é igual para todos. Mas, o caminho até chegar a essa zona de partida, esse longo caminho, não é, de maneira nenhuma, igual para todos.

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 A discriminação no desporto não é um tema de novo. O desporto é, aliás, visto como uma forma de mitigar e de atenuar essa discriminação. Apesar disso e apesar de o desporto servir muitas vezes também para isso, a atividade desportiva é também palco para este tipo de situações.

O desporto é, tradicionalmente, um setor dominado pelos homens e os progressos em matéria de igualdade entre mulheres e homens nesta área são dificultados pelas construções sociais de feminilidade e masculinidade, que muitas vezes associam o desporto a características «masculinas», como a força física e resistência, a velocidade e um espírito altamente competitivo e por vezes conflituoso. As mulheres que se dedicam à prática desportiva são vistas como «masculinas» e os homens que não se interessam por desporto seriam considerados «pouco masculinos».

Os estereótipos de género prevalecentes afetam não só a participação das mulheres na tomada de decisão nas organizações desportivas, mas também a sua participação nas mesmas. Os papéis masculinos e femininos tradicionais poderão ditar quantas horas as mulheres dedicam às responsabilidades familiares, o que pode repercutir‑se na quantidade de tempo que sobra para as atividades desportivas. O Índice de Igualdade de Género do EIGE mostra claramente que as mulheres dedicam mais tempo às atividades familiares, em comparação com os homens, e participam menos em outras atividades sociais, como as atividades desportivas, culturais ou de lazer.

Para além disso, outro exemplo claro da discriminação das mulheres no desporto passa pela diferença abismal de pagamento e condições para a evolução dos atletas. Mesmo tendo em conta que o desporto masculino move mais capitais e, por conseguinte, consegue oferecer melhores condições aos atletas, isto põe em causa a igualdade de oportunidades. Como é que é possível atingir a equidade no desporto se as oportunidades de não são iguais para todos?

Um exemplo desta gritante desigualdade é um torneio de padel com o reconhecimento da própria federação portuguesa de padel, onde pelo mesmo preço de entrada o prémio masculino corresponde ao dobro do feminino.

Este tratamento desigual já dura séculos, e por muitos avanços e progressos que tenham sido feitos através de movimentos feministas nos últimos anos, continua a existir misoginia em todos os aspetos da sociedade, seja no mundo do trabalho, desporto ou lazer, por conseguinte ainda existe um longo caminho a percorrer para atingir esta ideia utópica da igualdade de género.

Leonor Tolda

Do meu ponto de vista positivista, acredito que esta nova geração dê mais um passo em frente nesta corrida que parece não ter fim, mas precisamos sempre da ajuda de TODOS na conquista de um mundo mais igualitário.

Leonor Tolda

quinta-feira, 3 de março de 2022

Violência Obstétrica: Existirá no Portugal de hoje?

“Bem-estar” é a ausência de doença ou de qualquer condição que possa afetar negativamente o estado físico e psíquico do indivíduo.Deste modo, é logicamente possível estabelecer uma relação diretamente proporcional entre a qualidade dos cuidados de saúde prestados e o bem-estar, a satisfação, do paciente. 

Estou confiante de que este artigo vos provará o contrário. 

“Portugal continua a ser um dos países do mundo com melhores cuidados de saúde materno-infantil, […]. Isso conseguiu-se à custa da generalização de boas práticas.”, dizem os nossos médicos.

Afirmam-no aqueles que representam parte dos profissionais de saúde que, durante nove meses, acompanham as futuras mães, mas não as fazem sentir acompanhadas. 

E durante séculos, as mulheres foram silenciadas. 

E até há 47 anos, uma nação estava silenciada. 

Hoje em dia não. Hoje, somos um povo livre de se exprimir! 

 

8 por 8 biliões

Então, como se explicam casos de mulheres cuja voz lhes é tirada, tal como o controlo sobre o seu próprio parto? Qual a justificação lógica para cenários, verídicos, de mulheres inferiorizadas e humilhadas? O que dá o direito a pessoas que escolheram dedicar as suas vidas ao cuidado do outro, dizer coisas como “Fique calada! Não lhe custou fazê-lo (o bebé), pois não? Agora não se queixe!” ou “Essa ainda é nova. Se tem idade para umas coisas tem de ter para outras!” (no contexto da recusa de ministração da anestesia epidural dado a idade da parturiente, da mulher em trabalho de parto).

Não há uma explicação, mas há um nome: Violência Obstétrica.

 Violência obstétrica existe. Atos de apropriação do corpo e dos processos reprodutivos femininos, implicando assim a limitação da autonomia da mulher, existem e são mais frequentes do que pensamos ou queremos admitir.

São situações onde só há espaço, e que já ocuparam espaço a mais, para o inadmissível e o impensável, em pleno século XXI. Porque é de facto impensável, no mundo tão (politicamente) correto e evoluído em que vivemos, que um dos momentos mais importantes da vida de uma mulher se possa tornar numa cena de terror. Que a dádiva que a mulher recebe, o poder de gerar um ser vivo no seu interior, se transforme em algo mais que banal, algo psicologicamente brutal. Um momento único para quem o experiencia. Único, muitas das vezes, por consistir em atitudes inconcebíveis por parte de profissionais de saúde. É o caso do desrespeito e desconsideração pelas preferências da mulher, relacionadas com o decurso da gravidez e do parto; da humilhação verbal e/ou manipulação emocional; da desvalorização da dor; de toques forçados; ou ainda de tratamentos discriminatórios dado um qualquer traço da mulher, da vítima.

Atitudes que são nua e cruelmente exemplos de violência física e verbal/emocional nos hospitais e maternidades portuguesas.

Podia também falar em Episiotomia, Manobra de Kristeller, “Ponto do marido” …  entre outros termos clínicos, para nós pouco comuns. Termos que talvez devessem estar mais presentes no nosso quotidiano, mas cuja execução seguramente deveria estar ausente no grande dia de tantas mães.

Como é que é possível, sendo Portugal “um dos países do mundo com melhores cuidados de saúde materno-infantil”, uma técnica desaconselhada pela Organização Mundial de Saúde ser rotineira no nosso país? A episiotomia trata-se de uma incisão na zona do períneo (a região que engloba os tecidos entre a vulva e o ânus) e é destinada a ampliar o canal de expulsão do feto, acelerando assim o parto. Esta prática é absolutamente desencorajada em partos não instrumentados e, ainda assim, é realizada em mais de 70% dos partos hospitalares em Portugal.

Obrigada senhores doutores, por tratarem tão bem das nossas mães. 

Este é efetivamente um pesadelo para as mulheres, mas não um problema apenas das mulheres. É um problema dos pais dessas mulheres, dos companheiros/amigos dessas mulheres, dos colegas de trabalho dessas mulheres, da equipa médica que acompanha essas mulheres, mas sobretudo, da sociedade onde se inserem e que continua a querer silenciar AS Mulheres.

Certamente este não será problema num país Europeu, pacato e desenvolvido como Portugal. 

Até porque Portugal é “um país de brandos costumes”! 

Esperem lá…, mas quando é que a mutilação genital feminina se tornou um costume brando? Nada brando será certamente para as suas vítimas, para os objetos de prazer sexual do homem em que, vistas desta forma, lhes é realizado o famoso “ponto do marido” – que consiste na cosedura desadequada dos tecidos perineais estreitando o canal vaginal, o que propicia dor intensa à mulher durante o ato sexual.

 

Inês Graça

A mulher é tão mais que nascer, – ouvir, calar, dar prazer ao homem – reproduzir e morrer.


A violência obstétrica existe, não permitam que nos silenciem. 


Pelo bem-estar da mulher, e assim, pelo bem-estar das futuras gerações, 

    

Somos um por todas e todos por uma.



Maria Inês Graça   




quarta-feira, 2 de março de 2022

O Papel da Mulher na Educação e na Literatura

Como autora deste artigo, recomendo o conhecimento da definição de feminismo antes de continuarem a ler...

Como todos sabem, durante muitos anos, o papel da mulher na sociedade foi sempre muito inferior ao que as nossas antepassadas mereciam. Penso que nunca foi uma questão de acharem que nós não éramos capazes, mas, sim, porque temiam o poder desconhecido, nunca antes explorado, de uma mulher.

O papel da mulher, tanto na literatura como na educação, foi dos progressos mais difíceis e revoltantes que a história do feminismo tem para contar, e, mesmo em pleno século vinte e um, temos de continuar a lutar por algo que já nos devia ser garantido: a igualdade de género. 


Como aluna do 12º ano, por pura curiosidade, abri o meu manual de Português, o do ano passado e o deste ano, na parte do projeto de leitura (um livro que iremos ler durante o semestre para depois fazer a sua apreciação crítica, numa apresentação oral) e verifiquei que existem 41 livros, 41 opções, ou seja, ao todo, durante esses 2 anos escolares, teremos 82 obras como opção de leitura obrigatória, e quantas dessas 82 obras são escritas por mulheres? 8.                       

É um problema que nós encaramos com toda a normalidade, provavelmente, se formos ver os livros que temos em casa, conta-se pelos dedos de uma mão aqueles que são escritos por mulheres. Temos de mudar essa mentalidade.          

Uma mulher bem formada, devido a todos os momentos e experiências que viveu, ou está a viver, vai ter sempre uma visão mais justa e real das coisas, e eu explico o porquê, desde sempre que as mulheres veem as situações de fora, ou porque não foram chamadas para o assunto ou até mesmo porque não se podiam pronunciar, tudo  devido ao  facto de serem do sexo feminino. Sabiam de tudo, mas não podiam opinar em relação a nada, o que, por exemplo em termos de escrita, foi uma grande revolução. A partir do momento em que começaram a expelir tudo para aquelas folhas, a sua maneira de ver, opinião ou até mesmo soluções, foram vistas e tidas em consideração. Sempre com os pés bem assentes na terra, até aos dias de hoje. O feminismo influenciou muito a literatura feminina, provocou um tremor em pensamentos e ideais que até então eram considerados sólidos. Trouxe ao mundo olhares e expectativas completamente diferentes e muito importantes.                    

Como já lemos diversas vezes nos livros de história e também nos é apresentado no nosso quotidiano, a mulher é das pessoas mais importantes e com mais impacto na vida de um ser humano, está gravado na nossa história faz parte de nós, seja que mulher for, uma mãe, uma avó, uma vizinha ou até a senhora do café. Talvez devido ao nosso passado tenhamos ganho uma confiança e desenvolvido um talento natural para educar as pessoas ao nosso redor. Até ao século vinte, a função de ensino era, na prática, exclusivamente masculina e, devido aos aspetos culturais da época, cabia à mulher a função tipicamente “natural”: cuidar da casa, servir o marido, ter filhos. Decorridas algumas décadas e após bastante luta, as mulheres passaram a estudar, ganhando espaço nalgumas áreas de trabalho “normalmente” próprias para homens e conquistaram algumas mudanças. Por questões culturais e disciplinares, foi necessário instituir o papel de docência às mulheres, na Educação, o ensino primário era considerado a extensão da formação moral, com base nos princípios de cidadania. Isso deu à mulher o reconhecimento que procurava nesta área não só como professora mas também como educadora de cidadãos para o mundo.

 Em suma, acho que escrever um artigo assim, após uma grande procura de informação, é muito importante para nós, senhoras do mundo. Espero que num futuro próximo as novas gerações escrevam sobre o sucesso de uma luta vencida e não por uma luta que ainda está longe de terminar. É importante relembrar que a igualdade de género está longe de estar 100% conquistada, mas não é impossível consegui-lo.

Um agradecimento muito especial a todas as mulheres, mas, principalmente àquelas que, de uma maneira ou de outra, estão ligadas ao tema referido.

Lembrem-se: unidas, seremos sempre mais fortes.

Mariana Lopes - 12º


Ser


A mulher comprou uma dádiva
Condenada à fortuna sem par
Por horas de dor, venderam-lha os deuses
Ao dar Vida ao ser, o futuro irá gerar.

Um momento do mais puro amor
Tantas as vezes em que não o é.
Deus, universo, seja lá o que for…
É na mulher que deposito a minha fé.

Já nem sei se será o Homem
Já nem sei se será a sociedade
Faltar-nos-á muito ainda?
Estará assim tão longe a igualdade?

E crescer, sendo mulher?
Ui, tem tanto que se lhe diga…
Como roseira podada em janeiro,
Continua a ser uma luta, a cada dia.

Curioso ser o Homem quem carrega a espada,
Sendo a mulher tal guerreira
Vamos à luta? 8 por 8
Que temos esperado a vida inteira!


Maria Inês

Maria Inês Graça 12ºF




terça-feira, 1 de março de 2022

Um assunto de Mulheres e uma mesa com lugares vazios

Considero-me uma miúda cheia de sorte. Cresci a ouvir histórias de princesas guerreiras, de piratas que governavam os mares, de raparigas que escalavam montanhas, de rainhas, de cientistas… Personagens fictícias e reais que, embora não o percebesse na altura, representam tudo aquilo em que acredito. Cresci rodeada de pessoas que sempre me inspiraram. Cresci com a certeza de que podia ser o que quisesse, de que todos o podíamos fazer, desde que nos respeitássemos.

Ao longo de 10 anos, percebi que não existia aquilo que sempre assumi como garantido. Em terras e lugares não tão distantes, não havia rainhas, nem heroínas… A desinência “-a” desaparecia frequentemente entre negócios e interesses… Citando Virginia Wolf, “Durante a maior parte da história, anónimo era uma mulher”. Agora, vemos parte dela a perder-se novamente nas garras do medo e do abuso de poder. Em pleno século XXI, a educação não é um direito universal, a política continua a ser um mundo de homens, há pessoas sem controlo absoluto do seu próprio corpo, o mesmo corpo que é mais visto como sexual do que como arte, realizam-se práticas desumanas, associam-se géneros a coisas que não o têm, vários direitos humanos são violados e renegados… Por quanto mais tempo vamos tolerar isto?


Descendemos de uma longa e poderosa geração que nos deixou um legado, a nós, gerações vindouras, filhas e filhos de mulheres e homens carismáticos que lutaram para termos um lugar na mesa. Conseguiram reivindicar os nossos direitos. Agora, são nossos por nascença. São nossos por elas e por eles. Não será nosso dever usar a voz em prol do que estes nossos antepassados conquistaram e usá-la para defender aqueles que foram silenciados? Para que as próximas gerações não o tenham de fazer e para que se sentem à mesa, tal como fizemos…?

E, assim, hoje reforçamos a convicção de que o Feminismo não é um movimento exclusivo de mulheres. Independentemente das suas variantes democráticas, é um movimento heterogéneo e em constante evolução, político, filosófico e social que tem como objetivo alcançar a paridade de géneros através do empoderamento feminino e, especialmente, do reconhecimento desse poder (já existente) pela sociedade. O Feminismo inclui todos os géneros e sexualidades. Defende que todas as mulheres, de todas as cores, feitios e personalidades, sejam respeitadas por aquilo que são: seres humanos. No entanto, esta noção aparentemente radical tem vindo a ser mal interpretada. Mas, mesmo assim, como continuo a acreditar que são palavras e ideias que mudam o mundo, pergunto-me: afinal, o que é justo?

O ser Feminista é defender o direito da liberdade de escolha. Reserva a todas as mulheres a oportunidade de tomar decisões e de fazer escolhas que talvez não faríamos para nós. O feminismo tanto apoia mulheres cujo sonho é ser mãe, como outras que decidem abortar. O feminismo não subscreve o aborto, mas antes o poder de decisão. Sonha com um futuro em que as mulheres não têm poder absoluto, mas, sim, poder sobre si próprias. Um futuro com menos limitações e mais oportunidades.

O Feminismo não é uma luta entre géneros. Trata-se de, através da educação, reconhecer estereótipos e o sexismo enraizado na nossa sociedade, de modo a que, de forma inclusiva e inovadora, possamos evoluir juntos da melhor maneira possível.

O ser Feminista é sonhar com um futuro em que o movimento em si se torna irrelevante, por ter sido inteiramente concretizado. Um futuro onde não andamos a contar quantas líderes mulheres há em relação a homens. Se alguém ocupa esse cargo, é exclusivamente por mérito e não pelo seu género, cor ou sexo. Um futuro onde não há líderes femininos nem masculinos. Apenas líderes.

O Feminismo centra o holofote em temas adormecidos e casos perdidos entre as folhas do tempo, tal como vamos ver ao longo desta semana. É por eles que se quebra o silêncio. Hoje, a 1 de Março de 2022, começamos mais um ciclo: 6 temas, 18 histórias de mulheres inesquecíveis, várias mulheres portuguesas icónicas… Vamos viajar por entre décadas e pelo mundo em 8 dias, graças a uma equipa incrível de alunos e professores. 8 dias por 8 biliões de pessoas. O Feminismo é por e para todos.

Laura Ferros de Azevedo

Por fim, todos sonhamos com um mundo melhor, mas não basta sonhar. Há que escolher, abraçar e defender uma causa. Algo que desperte a nossa alma, ilumine o nosso olhar e dê força ao nosso coração, algo que esteja intrinsecamente ligado a nós. Afinal de contas, todos procuramos algo que faça o nosso sangue ferver. Tenho 17 anos e a vista toldada por uma imensidão de factos, opiniões, notícias e artigos que se convertem numa amálgama de pensamentos de acomodação e de aceitação… Ouço afirmações de que tudo é demasiado complexo para ser resolvido, mas, enquanto isso, surge em mim a necessidade de dar vida e sentido à corrente de sonhos, crenças, planos e memórias que mantêm coesa a essência desta convicção: a fé num futuro onde todos têm um lugar na mesa. Tenho 17 anos e muito por aprender, por ver e por perceber, mas de uma coisa tenho a certeza: isto não é um assunto (só) de mulheres.


Laura Ferros de Azevedo